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v. 1 n. 1 (2021): Performatividades Amazônicas: práticas e reflexões
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Revista Semestral

Publicado: 2021-07-29

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APRESENTAÇÃO

Afirmar a importância do campo de conhecimento das Artes Cênicas num tempo de incertezas, de polarização, de desvalorização da arte, da cultura e dos povos oprimidos é a nossa principal motivação. Portanto, é com imensa satisfação que apresentamos o número de estreia da Revista TXAI – um periódico eletrônico vinculado ao único Mestrado em Artes Cênicas da Amazônia Legal – o Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFAC. A Revista TXAI visa ampliar o espaço de troca de experiências e proposições sobre práticas e teorias teatrais, voltada para a produção científica de pesquisas em nível de pós-graduação, com a missão de difundir a práxis artística no âmbito da região amazônica ou que tenha como protagonista as comunidades tradicionais originárias. 

Esse primeiro número, com o tema Teatralidades Amazônicas: Práticas e Reflexões, foi pautado na noção de encontro, da troca dialógica, do compartilhamento de saberes, fundamentado naquilo que se torna acontecimento quando há mais de um pensamento em escuta, mais de uma perspectiva em debate. Característica   peculiar do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFAC, ao reunir uma diversidade de pesquisas e pesquisadores por meio das próprias singularidades e pelo interesse pela diferença. Uma diferença que entrelaça em vez de distanciar.  

A partilha de práticas cênicas apresentadas pelos artistas-pesquisadores, inserem-se na esfera de uma construção sensível do conhecimento em arte, na descrição das práticas e reflexões das performatividades amazônicas, privilegiando complexos e diferentes modos do fazer cênico. Complexos porque são diversos. Porque valoriza e respeita a construção simbólica de cada indivíduo e comunidade que dela compartilha.

Abrimos nossa revista com uma potente exposição da origem da palavra TXAI, oferecida em dois idiomas pelo professor Joaquim Maná, da comunidade tradicional Huni Kuin. Maná nos conta a lenda do surgimento desse pronome de tratamento, hoje utilizado por todos os amigos que se aproximam das tradições de seu povo.  

Os textos deste número da Revista TXAI estão divididos em duas sessões. Sendo a primeira sessão voltada para artigos de professores/artistas especialistas no campo das artes cênicas, que abordam questões epistemológicas e conceituais a partir de suas experiências com comunidades tradicionais, com o ensino acadêmico na Região Norte e reflexões sobre arte decolonial dos povos da floresta. E a segunda parte da revista é um caderno de artistas, onde os artistas-pesquisadores falam de suas experiências como produtores de arte, performances de si e sobre a relação da arte com as cerimônias religiosas dos povos tradicionais da Amazônia.

No primeiro texto as professoras Vanja Poty e Annie Martins trazem sua experiência com o Teatro da Oprimida e o Teatro Engajado no maior bairro indígena da zona urbana de Manaus, refletindo como as experiências de vida das mulheres líderes da comunidade servem de empoderamento coletivo na busca por direitos.

O segundo artigo é de autoria do professor Elderson Melo e apresenta um histórico dos grupos de teatro popular do Acre entre as décadas de 1960 até o ano de 2009, focando no aprofundamento do processo de trabalho dos grupos Absabá, Grupo do Palhaço Tenorino e o Grupo de Teatro Vivarte.

O professor e escritor acreano João Veras nos oferece no terceiro artigo, a partir da análise da crônica No Caminho da Floresta de Affonso Romano de Sant’Anna, uma reflexão sobre colonialidade e decolonialidade nas terras amazônicas.

A tradição indígena Murui-Muina de cantar, dançar e ensinar por meio dos mambeaderos, e a história de exploração e deslocamento sofrida pelos povos indígenas da Amazônia colombiana, peruana e brasileira é o que alicerça o quarto artigo produzido pelos antropólogos colombianos Daniela Botero e Maurício Caviedes.

A revista TXAI segue com o quinto artigo produzido pela professora Vanessa Benites, que aborda as questões artísticas e pedagógicas em um projeto na comunidade Parque das Tribos em Manaus; e pela professora Andrea Maria Lobo que nos oferece, no sexto artigo, uma análise sobre os discursos produzidos a partir de documentos que regulam os processos de formação docente nos cursos de graduação nas universidades da Região Norte.

No sétimo artigo, a professora Flavia Meireles traz uma discussão sobre a relação entre Arte e Interculturalidades. Uma reflexão a partir dos povos originários e o ativismos na dança e no cinema, expondo como a arte contemporânea e seus circuitos estão amalgamados numa norma capitalista, a partir do conceito de branquitude.

O oitavo artigo tece ideias sobre um conjunto de investigações cênicas realizadas pelo professor e ator Francisco Alves durante a pandemia de Covid-19, em Boa Vista – Roraima, no ano de 2020, onde o corpo do ator se torna um território de experimentação; enquanto no nono artigo o professor César Huapaya traz uma reflexão a partir do conceito de facialidade na performance social cotidiana dos coletivos e sujeitos populares, onde o capital e a branquitude ainda permeiam a subjetividade dessas representações.

A sessão Caderno de Artistas traz três intervenções/reflexões a partir da experiência artística/pedagógica. Maiara Pinho traz um relato de sua experiência como filiada da Federação de Teatro do Acre no tempo presente, costurando com suas memórias de infância as perspectivas políticas, históricas e econômicas ao longo dos 42 anos de existência da FETAC. O professor e músico Christian Weik nos oferece uma reflexão sobre a música de ayahuasca enquanto elemento essencial do dispositivo neoxamânico, noção advinda do conceito foucaultiano de dispositivo. Descreve em seu artigo um percurso de alguns dos usos, funções e matrizes da música nos diversos contextos rituais ayahuasqueiros. Fechando o Caderno de Artistas, e nossa revista, temos um texto de Mariana Pimentel partilhando e analisando seu processo criativo com a dança em intersecção ao corpo indígena feminino, a performance e a ancestralidade.

Essa revista apresenta-se, dessa forma, como um ato artístico/político de resistência. Resistiremos ao sucateamento da educação brasileira, à diminuição exponencial dos recursos financeiros destinados às universidades públicas, ao negacionismo da ciência e do conhecimento acadêmico. A Revista TXAI mostra-se como uma performance viva, artística, cultural, acadêmica, política e social contra todo tipo de opressão e silenciamento dos povos originários, negros, mulheres, LGBTQI+, quilombolas, favelados, pessoas com deficiências e todos os oprimidos e oprimidas responsáveis pela construção de cada espaço de liberdade em nosso país!

HAUX HAUX!

 

Flavio da Conceição e Valeska Ribeiro Alvim