SABERES MÉDICOS E OUTRAS ARTES DE CURAR NA AMAZÔNIA:

CONFLITOS E AMBIGUIDADES (1890 – 1910)

Autores

Resumo

RESUMO: No decurso da última década do século XIX e a primeira década do século XX, foram produzidas diversas narrativas sobre as paradoxais relações entre saberes médicos e outras artes de curar na Amazônia. São perceptíveis nestas construções, movimentos caracterizados por tentativas de monopólio da clientela que buscava soluções para enfermidades do corpo e da alma, o que teria contribuído para a constituição de espaços permanentes de estranhamentos e (in)tolerâncias. É neste contexto que o Estado brasileiro e segmentos letrados da sociedade perceberam que não poderiam simplesmente ignorar a legitimidade que tinham os curadores populares junto a significativa parcela da população, vendo-se obrigados a dialogar com essas tradições e disputar com pajés, benzedeiras, pais de santo e outros artífices, a autoridade cultural. Tendo como orientação teórica produções que tratam sobre a História das Ciências e do Pensamento Pós-Colonial, este artigo busca tratar, priorizando como fontes de pesquisa jornais e documentos produzidos pelo poder público, como segmentos letrados tentaram deslegitimar os praticantes das outras artes de curar, seja através de legislações que visavam criminalizar estes saberes e fazeres, seja através da construção de representações totalitárias que nominavam de maneira pejorativa esses personagens e seus ritos. Em contraponto, também tem o intuito de discutir diferentes formas de transgressões e (re)afirmações desenvolvidas por uma diversidade de atores sociais que enfrentaram os atos repressivos, mantendo vivas suas tradições de acolhimento e tratamento de enfermos.

Palavras-Chave: Amazônia. Artes de Curar. Pajés. Benzedeiras.

ABSTRACT: During the last decade of the 19th century and the first decade of the 20th century, several narratives were produced about the paradoxical relationships between medical knowledge and other healing arts in the Amazon. In these constructions, movements characterized by attempts to monopolize the clientele that sought solutions for ailments of the body and soul are noticeable, which would have contributed to the constitution of permanent spaces of estrangement and (in)tolerance. It is in this context that the Brazilian State and literate segments of society realized that they could not simply ignore the legitimacy that popular curators had with a significant portion of the population, seeing themselves obliged to dialogue with these traditions and dispute with shamans, faith healers, parents of saint and other artisans, cultural authority. With the theoretical orientation of productions that deal with the History of Sciences and Post-Colonial Thought, this article seeks to address, as research sources, newspapers and documents produced by the government, how literate segments tried to delegitimize practitioners of other healing arts, either through legislation that aimed to criminalize this knowledge and practices, or through the construction of totalitarian representations that pejoratively named these characters and their rites. In contrast, it also aims to discuss different forms of transgressions and (re)affirmations developed by a variety of social actors who have faced repressive acts, keeping alive their traditions of welcoming and treating the sick.

Keywords: Amazon. Healing Arts. Shamans. Benzedeiras.

Biografia do Autor

Sergio Roberto Souza, Universidade Federal do Acre

Graduado em História pela Universidade Federal do Acre (1993), Mestre em História pela Universidade Federal de Pernambuco (2002), Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP) (2014) - área de concentração: História da Ciência e da Técnica. Professor Adjunto do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Acre, atuando no curso de graduação em História com as disciplinas História Moderna, Historiografia da Amazônia e História do Acre. Áreas de interesse: "Modernização" dos espaços urbanos, discursos médicos na primeira metade do século XX, práticas de medicina popular.

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Publicado

2021-12-31