ONDE O CORPO GUARDA O MUNDO
ARTES, MEMÓRIA E IDENTIDADE NO QUILOMBO RIO DAS RÃS-BA
Palavras-chave:
Quilombos, Corporeidade, Ancestralidade, Práticas Artísticas CorporaisResumo
A reflexão desenvolvida tem origem em uma experiência etnográfica de dez dias no quilombo Rio das Rãs, localizado em Bom Jesus da Lapa (BA). O território, composto por diversas comunidades historicamente formadas por processos de resistência e permanência, expressa uma profunda relação entre memória, ancestralidade e modos de vida coletivos. A formação dos quilombos, conforme Clóvis Moura, articula-se à luta contra o sistema escravocrata, constituindo espaços de acolhimento, organização social e afirmação identitária. A legislação contemporânea, especialmente o Artigo 68 da Constituição Federal e o Decreto 4887/2003, reconhece o direito territorial dessas comunidades a partir do critério da autoatribuição, reafirmando a natureza política, histórica e cultural dessas identidades. No Rio das Rãs, a corporeidade emerge como eixo estruturante das práticas culturais, que integram dança, canto, capoeira, rituais e outras manifestações sustentadas pela ancestralidade. O corpo, entendido como arquivo vivo de memórias e saberes, atualiza gestos e experiências que atravessam gerações, transformando práticas antes criminalizadas, como a capoeira, em símbolos de resistência e dignidade. As artes corporais presentes no quilombo operam como dispositivos pedagógicos e epistemológicos, preservando tradições, fortalecendo vínculos comunitários e ressignificando as dores históricas da colonização. Assim, a cultura quilombola do Rio das Rãs constitui um sistema complexo de produção simbólica, no qual resistência, espiritualidade e criação se entrelaçam, garantindo continuidade, pertencimento e vitalidade às memórias de seu povo.
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